terça-feira, 8 de setembro de 2015

Os refugiados e a posição européia

https://www.facebook.com/europeantraditionalism/photos/a.1455919124696822.1073741827.1455918198030248/1624475801174486/?type=1&theater


Para a opinião pública, obviamente os mortos do litoral europeu valem mais que os mortos em domínios dos extremistas. Mas há tanto a se considerar, que alicerçar decentemente uma opinião anda mais difícil que o normal. A questão dos refugiados é antes de tudo um conflito moral.


Por um lado, eles são gente. Boa parte tirada de casa à força por esses paspalhos do ISIS (não ando muito preocupado com imparcialidade, e respeitar esses caras pra mim já virou falta de caráter), quando não forçada indiretamente pelo caos do contexto. São seres humanos, e não acolher essa gente parece algo terrível.



Por outro lado, são massa de manobra e arma de guerra, e com eles militantes extremistas adentram em territórios antes melhor assegurados. É como a tática de gaza de lançar mísseis de dentro de comunidades de cidadãos para que não recebam fogo em retaliação e, caso recebam, possam atribuir culpa da morte de civis ao inimigo. Da mesma forma, ironicamente a grande vilã à maioria parece ser a comunidade européia - não alegando que em parte não o seja. Esta tem muito com o que se preocupar recentemente, e permitir a situação caótica de receber mais gente do que é capaz de comportar mantendo as estruturas, pode gerar sofrimento a um número bem maior de pessoas não só no longo, mas no médio prazo, e não só pela desestabilização do continente em si. Na balança, as fagulhas da crise européia relacionada a esse caso são inversamente proporcionais ao fortalecimento da maior organização terrorista da atualidade, e seu fortalecimento permite uma abrangência de opressão e uso do sofrimento humano nas áreas de ação cada vez maior e mais efetiva. Estamos numa situação onde acolher os necessitados fortalece os agressores. No meu ver, um caso insana e essencialmente covarde.

É um conflito cultural, mas sobretudo moral. Se formos a fundo, mesmo que discartemos o medo em relação à economia, é de fato como escolher entre matar uma pessoa que você vê e uma que você não vê. Problemas sérios pra chegar a uma opinião conclusiva, ainda acreditando que em caso nenhum se deve deixar essa gente morrer.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Larguem suas armas! - Bryce Williams e debate do desarmamento civil

Agora, com os assassinatos por parte de Bryce Williams recém saídos do forno, se faz mais visível a discussão do desarmamento civil nos EUA, o que por sua vez reergue essa temática no Brasil - ainda que de forma parca -, que na última década não se deixou estagnar mesmo após um plebiscito. Plausível, é uma questão séria, e não repudio quem intenciona o desarmamento civil, uma vez que eu também almejaria um mundo ideal onde armas de fogo perdessem razão de existir. De toda a forma, me soa muito mais como um discurso bonito que como uma saída de fato benéfica à sociedade se considerarmos a realidade atual. Para que seja feita uma análise oportuna, dados os casos recentes, cabe iniciar com a questão americana, através de artigo veiculado recentemente – primeiro referenciado ao fim do texto – e corroborado com alguns outros tópicos – igualmente referenciados -, para num segundo momento partir a outras questões pertinentes com as quais tive contato em um trabalho semestral acerca do tema.

De início, é necessário ter em mente que nos Estados Unidos é permitido o porte de armas à população com legislações diferentes em cada estado, em geral com leis que facilitam o processo, mantendo civis consideravelmente armados.  O argumento nos últimos tempos é de que os EUA, justamente por sua considerável abertura a posse e porte de armas, tem incidência maior de mortes por arma de fogo e de ataques em massa que outros países desenvolvidos. O injusto é o comparativo de números brutos de incidentes desconsiderando questões simples como a densidade demográfica, o que é um erro óbvio. Pode-se deduzir, afinal, que a China possui mais mortes por arma de fogo anuais que a Faixa de Gaza, e isso não implicará em dizer que é mais fácil ser baleado na China do que lá.

Os ataques nos EUA ocorrem quase sempre em regiões mais populosas, e por vários motivos não se veiculam as tantas notícias de vidas salvas e impedimentos de estupros graças ao porte de armas quanto possível seria. Curiosamente os estados com leis liberais em relação ao porte de armas pela população vem apresentando índices de crimes violentos muito inferiores à média nacional, enquanto estados mais restritivos ostentam os índices de crimes violentos mais expressivos. Washington, por exemplo, que como capital é a única cidade norte-americana que proíbe posse e porte de armas de fogo, é também hoje considerada a cidade mais violenta do país.

Se nos desapegarmos de números brutos e, para tornar o comparativo mais justo, pusermos em pauta as mortes em ataques massivos com armas de fogo por milhão de habitantes, os EUA caem para 9º lugar no ranking de nações consideradas desenvolvidas, atrás de países como Noruega, Suíça, Finlândia e Bélgica. Visivelmente não há relação de proporcionalidade, nesse caso, dos crimes com o controle de posse e porte de armas de fogo. Se considerarmos o número de vítimas dos atiradores, os EUA ficam em 8º lugar (listas completas: http://bit.ly/1NWBo2z ).

De 2007 a 2015 o número de americanos com licença de porte de armas de fogo cresceu 178% (12,8 milhões de licenças de porte). Entre 2007 e 2014, o o número de licenças entre homens elevou-se em 156%, e entre mulheres o número de licenças de porte aumentou 270%, revelando uma nova e surpreendente tendência. Enquanto isso, nos oito últimos anos a taxa de crimes violentos decresceu em 25%.

Se as estatísticas não batem com o discurso pró-desarmamento, de onde vem essa ideia? Hoje em dia, talvez simplesmente ideais utópicos de paz estejam falando mais alto que a lógica, talvez a questão se restrinja desinformação, ou ainda envolva algum jogo de poder que tenha por base os movimentos ideológicos de nosso século, ou talvez não seja nada disso e eu esteja errado.

Historicamente, todavia, sabemos que o desarmamento civil esteve presente como forma de governantes garantirem que o povo não oferecesse risco em rebeliões. O primeiro registro ocorre em território japonês através de Toyotomi Hideyoshi, que acabara de unificar o Japão e centralizar o poder entre os anos de 1576 e 1615. A decisão foi estratégica, já que os levantes de camponeses ocorriam e representavam algum risco. Hideyoshi convenceu os camponeses de que as armas seriam entregues para viabilizar a construção de uma enorme estátua de Buda, e os camponeses entregaram as armas pacificamente. A partir de 1588 apenas samurais teriam o direito de empunhar espadas – daí os ninjas que, posteriormente, lutavam com ferramentas de campo.

No caso americano tem origem em diversos estados como forma de evitar que os escravos representassem ameaça aos seus senhores. No Novo Mundo a percepção de que os negros livres eram simpáticos ao sofrimento de seus irmãos escravizados não poucas vezes levou à busca por desarmar a todos estes, tanto escravos quanto livres, de forma que até cães chegaram ter posse proibida sem devida licença a negros no mesmo intuito - ainda que negros livres -, dando a liberdade a um branco de matar qualquer cão não licenciado pertencente a um negro no ato.

Os casos citados de alguma forma suscitam um argumento de cunho global, apontando ao chamado “genocídio estatal”. Não é segredo que a maioria dos casos de desarmamento na história foram seguidos de dominação por força da população civil. Pode parecer algo distante de nossa realidade, mas dominar uma população desarmada é infinitamente mais simples, seja o inimigo o próprio Estado ou um invasor. Com base nisso, há quem alegue ser um direito da população civil a capacidade de defesa. A garantia da integridade nacional pode igualmente se fazer favorável, no sentido de que uma população civil armada é um poderoso fator de resistência e, portanto, de garantia da soberania nacional.

Os opositores à ideia do desarmamento parecem ainda hoje ser no Brasil a maioria, apesar de esta não ser a posição oficial do atual governo. Mas como brasileiros, por que deveríamos ser contra o desarmamento?

Um fator merecedor de atenção seria o respeito às minorias conforme a Constituição. Os proprietários de armas legais são hoje cerca de 2,5 milhões – 1,5% da população, necessariamente respeitadores prévios da lei, sendo este um requisito para aquisição do direito a posse de armas. Sendo um número tão ínfimo, desarmá-los provavelmente não acarretará grandes mudanças. O que se deduz é que o Brasil não tem um problema de excesso de armas, ao contrário do que se alega. É um país civilmente desarmado, de forma que o problema é o banditismo, e não o armamento civil.

A “feudalização” se constata hoje em outros países que passaram pelo processo. O que ocorre com o desarmamento é que a partir dele apenas abastados podem contratar segurança privada para defesa do patrimônio. Somente endinheirados terão direito à segurança armada particular, por mais caótica que a sociedade esteja, ao passo em que classes mais baixas jamais terão como pagar por esse tipo de proteção, já que até o processo necessário para aquisição de arma e direito à posse é caro e dispendioso.

Sabe-se que é responsabilidade do governo garantir a segurança da população, e esta é uma das premissas essenciais a quem defende o desarmamento civil. A grande questão é que as forças policiais no Brasil não possuem ainda a capacidade de garantir a segurança da população e, tirando as armas da mão do povo, querendo ou não, continuará sem a capacidade de fazê-lo. Se um governo não garante a segurança, não deve ser um crime pensar que a população civil deve ao menos ter condições de fazê-lo, nem que em regiões de interior, onde há pouca ou nenhuma cobertura policial. O caso japonês é de desarmamento civil e considerável segurança pública, mas vale frisar que o país conta com uma das forças policiais mais eficientes do mundo, treinada e capaz de articular a defesa da população, apesar de, como visto, ser uma nação com um histórico horrendo de dominação da população civil.

O caso brasileiro é uma questão ainda mais complexa. Houve não poucos escândalos envolvendo o recolhimento de armas nas referentes campanhas, armas estas repassadas ilegalmente a organizações criminosas.

Ninguém é obrigado a concordar ou dar credibilidade ao texto, obviamente. Iniciando alguma conversa útil, já vale. :)

*spotniks.com/ha-tempos-a-midia-vem-mentindo-para-voce-sobre-os-tiroteios-nos-eua-e-esse-e-o-motivo/
*www.keepandbeararms.com/information/XcIBViewItem.asp?ID=916
*spotniks.com/apos-crescimento-de-178-de-porte-de-armas-criminalidade-despenca-nos-estados-unidos
*crimepreventionresearchcenter.org/2015/06/comparing-death-rates-from-mass-public-shootings-in-the-us-and-europe/
*jus.com.br
*bhservico.com.br
*espada.eti.br
*philosofias.wordpress.com
*fup.org.br
*movimentovivabrasil.com.br
*comitepaz.org.br
*prosaepolitica.wordpress.com
*spotniks.com/apos-crescimento-de-178-de-porte-de-armas-criminalidade-despenca-nos-estados-unidos/entreguesuaarma.gov.br
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*comitepaz.org.br
*prosaepolitica.wordpress.com

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Decência e vulnerabilidade

  "Eu não mereço ser estuprada". Uma pesquisa mal conduzida fez a cabeça de muitos, e uma falha de análise de contextos gera a outra. Estamos trabalhando de novo com o óbvio, como alguém que segura um cartaz com um "A Terra é Azul" escrachado. Geralmente mesmo um bandido qualquer sabe que uma mulher não merece passar por isso, tanto quanto sabe que é errado roubar ou matar. E se não souber, é porque é insano, e se for insano, não faz diferença que seja avisado. Aliás, esse consenso de que é errado era ainda maior, ao menos em nível de discursos sociais, quando o cavalheirismo ainda era parte fixa no imaginário social como um dever masculino. Mas essa é uma visão “crua” das coisas, e eu sei disso, caso alguém tenha me achado um neandertal. hahah
  O primeiro argumento que pensei em levantar quando vi conhecidas com os cartazes portando aqueles dizeres foi o inegável: uma bunda de fora – e peitos de fora também -, em nossa sociedade realmente sabem despertar um homem, e se há uma menina “bem-vestida” ao lado de uma “mal vestida”, a mal vestida tende a atrair mais a atenção de um. Mas vi logo que havia outros pontos a se considerar. Eu tenho buscado adotar a política do “ser tardio no falar”, e isso parece ter sido saudável. Quem me notou escrevendo MUITO menos hoje em dia no Facebook, saiba que é tanto pela falta de tempo que me cai agora, quanto por isso. :P
  Não foi difícil lembrar que – infelizmente, eu diria -, a maioria das meninas estupradas – e meninos, já que não são só elas, e inclusive mulheres estupram – que conheço, são crianças que nem sequer tinham o corpo “bem formado” quando essa atrocidade ocorreu. E se sairmos de nosso contexto, podemos desembocar por exemplo na cultura islâmica: machista pra burro e com um alto índice de estupros - muitos encobertos, como se sabe. E lembremos que em casos mais extremados como o Afeganistão, basicamente dominado pelo regime do Talibã, a burca é de uso comum. O ponto em que quero chegar e que a causa do estupro parece estar muito mais relacionada com a vulnerabilidade que com a “decência”.
  A vulnerabilidade ser questão relevante é só mais um dos fatores que provam que um estuprador não é um homem comum, mas um doente. E não digo ‘doente’ como quem justifica. São criaturas que me inspiram a penalização legal de castração na melhor das hipóteses. Mas o estupro, apesar de sujo, torpe e hediondo, ainda é um ato de cunho sexual, e naturalmente relacionado à atração sexual. Não havendo aparentemente estatísticas sérias que comprovem que a vulnerabilidade é o ÚNICO fator, acho então natural pensar que uma garota com roupas “modestas” demais pode despertar os instintos de um homem, sim, e inclusive de um estuprador – lembrando que essa polêmica tem se restringido a esse tipo de estupro. Creio que sugerir a uma menina que cubra um pouco mais o corpo, especialmente em situações que a tornem vulnerável, deve ser encarado não como uma “regra opressora de uma sociedade machista e patriarcal”, mas como no mínimo um bom conselho, dada a situação das coisas – ninguém em sã consciência gosta de saber que pessoas podem ser assaltadas, estupradas, espancadas e mortas quando saem na rua, convenhamos. Os estupradores é que devem ser ensinados a não estuprar, assim como os assaltantes devem ser ensinados a não assaltar, mas não vou por isso andar com a minha carteira pendurada pra fora do bolso e deixar a casa aberta quando saio – bom senso. Devo repetir, ainda assim, que nessa questão do estupro o grande ponto parece mesmo ser a vulnerabilidade, e não a ‘decência’. De toda a forma, não vejo como inválida a questão de se cuidar.
  Mas quer saber? Dane-se! Eu defendo a decência e sempre defendi, e não é por não ser o primo fator a se considerar quando o assunto é estupro, que se torna um tópico descartável. Eu creio que o vestir-se bem é algo... Épico! E caraca, como uma menina sabe ser mais atraente quando se veste bem que quando faz essas perigueteadas! :P. No meu ver, a decência seria uma questão de companheirismo entre os gêneros – onde homens também deveriam ter parte -, pelo bem-estar de ambos, considerando as limitações de cada um. Só que infelizmente é um ato de bom senso e convívio que não tem chances e nem sentido de ser numa sociedade que soube se fazer relativista a ponto de descartar tantos valores morais – ao menos o que antes entendíamos como valores morais. Depois de tudo isso, eu continuo incentivando todo mundo a se vestir bem. E se todos os argumentos caírem um dia, ainda vou ter o argumento de que é porque eu realmente acho bacana! hahah
  O assunto tá longe de morrer e, na verdade, provavelmente não vai mais se tocar no mesmo ponto de forma lá muito branda a partir daqui. Então se quiserem me corrigir ou acrescentar algo, do this! Tamos aí pra isso!

quarta-feira, 19 de março de 2014

O Arbítrio Divino

  É engraçado entender o que houve no Éden. Adão é criado, se sente só, ganha Eva, os dois pecam e são castigados. Por que não poderia ter começado de um jeito melhor, ou com um relato mais bem arquitetado? As histórias bíblicas ficaram tão ‘batidas’ em nossa cultura que às vezes perdemos a capacidade de perceber o tamanho delas. A que se segue é simples e conhecida, mas pra quem nunca entendeu o sentido disso tudo, vale a tentativa. :)
  O homem, perfeito, era e cumpria exatamente o que havia sido criado para ser e cumprir. E tanto Deus não queria uma marionete, que criou um ser perfeito no lugar perfeito, mas capaz de se sentir insatisfeito, sem que isso sequer configurasse pecado.
  O Criador deu tudo: a perfeição, a Sua própria imagem, o vigor, o fôlego, a mente livre, a capacidade de criar - como só Ele -, um jardim feito por Ele próprio como morada, uma natureza feita para ser completamente livre da corrupção e a Árvore da Vida, para que o homem vivesse para sempre. Mas tanto quis Deus alguém com quem se relacionar de forma verdadeira que, há de se insistir, criou esse alguém com a capacidade de sentir-se entristecido e incompleto, insatisfeito mesmo com todas as condições criadas por Ele, mesmo tendo um relacionamento com Ele. É estranho pensar assim, não? :P
  O homem perfeito, no lugar perfeito, se sentiu insatisfeito, e percebeu que queria outra coisa. Deus, por sua vez, entendeu e ficou feliz em dar, e criou a mulher, igualmente à Sua imagem e semelhança, e os dois seriam enfim completos entre si e com Ele. Os seres humanos perfeitos, no lugar perfeito e agora na forma mais simples e plena completos e com Deus, e Deus lhes amando e lhes permitindo viver bem.
  Além disso, Deus havia dado um presente ao homem, que era uma mente pura e imaculada pela corrupção gerada pela rebelião nos primórdios. Mas como ter um relacionamento verdadeiro, aberto e sincero, omitindo? Como amar alguém e esconder a realidade? Como amar alguém de verdade prendendo nessas limitações, ainda que elas sejam o lugar mais belo, seguro, perfeito e pleno de amor? Deus tanto amou o ser humano e tanto quis um relacionamento verdadeiro e sincero que antes de tudo explicou, letra por letra, que havia aquela lei escrita antes do próprio homem de que o pecado traria a ruína, de que ‘certamente morreriam’, porque a própria natureza de Deus não poderia conviver com a corrupção, e a corrupção não poderia existir no meio da criação. Deus explicou, deu tudo. Deus criou o homem para que essa fosse a criatura privilegiada, aquela que se relacionaria com Ele de forma plena, e desbravaria, e construiria, e criaria, e faria do mundo um jardim, com Ele, com Sua bênção e Sua proteção. Mas como amar sem dar liberdade? Como amar sem dar-se a chance de, apesar de tudo, ouvir um “não”?
  E o ser humano, perfeito, no lugar perfeito, completo e recebendo todas as provas de amor, ainda achou que queria outra coisa. Fez, apesar de tudo, escolha de dizer “não”, e ouvir o conselho de alguém que nunca lhes provou amor, em lugar do único que dera tudo, e fizera tudo por amor. O “não” foi dito, e Deus teve de cumprir a sentença de eliminar o ser humano, agora hediondo, sujo pela corrupção.
  Mas Deus, em SEU arbítrio, ainda decidiu amar. Não o levou à morte eterna, como rezava aquela lei escrita antes da Criação, mesmo que tivesse sido essa escolha feita pelo próprio ser humano. O Criador, contra todas as perspectivas e com toda a capacidade de ‘passar uma borracha’ e refazer, tentar de novo, continuou o amando, e mudou todas as perspectivas: em lugar de exterminar o homem junto com a corrupção que entrava no mundo através dele, em sua sabedoria apenas tirou o homem do contato com a Árvore da Vida, pois sabia que uma vida em eterna corrupção faria dos seres humanos tão encoleirados, presos em seus próprios vícios e em sua própria sujeira, tão deturpados, torpes e tão infelizes quando os anjos que caíram antes deles. Ele os expulsa do jardim e os castiga, como um pai que quer mostrar ao filho que viver em certas linhas não faz bem. Assim, Deus ama os homens uma vez mais. Mas o mais inconcebível e inacreditável ainda estava por ser feito.
  As ações de rebeldia ergueram a lei da morte, necessária para o equilíbrio da Criação que Deus havia feito para si e agora para os homens. E mesmo com todas as escolhas que o homem fez contra Deus, uma após a outra, Deus o continuou amando. O Filho, com o Pai desde o início, decidiu que pagaria Ele mesmo essa lei para livrar esses seres perdidos da culpa e dar uma chance de eles voltarem, e não morrerem, se ainda quisessem voltar à saúde, voltar ao que nasceram para ser, e voltar a se relacionar com o Pai. E o Filho de Deus vem como Filho do Homem falar com os homens, e não como alguém que ordena, obriga, condena. O Deus Cristo vem sendo o que Ele é, e mostrando ao ser humano o mesmo que com o Pai mostrava no Éden: que queria o ser humano livre, verdadeiro, e que o queria vivo para sempre. Sim! Ainda o queria vivo para sempre e com Ele! E veio na forma de um humano como os outros, abrindo mão do seu trono e de sua glória para vir pobre e nascido na sujeira em que qualquer ser humano nascia, para em seguida ser deitado num cocho de madeira onde os animais comiam. Não melhor, nem em melhores condições! Apenas como um deles, um menos abastado. E veio para ser tentado em todas as dificuldades que o ser humano tem, para perdoar o ser humano como alguém que realmente entende, e inclusive na prática, aquilo pelo que um ser humano pode passar, e quanto um ser humano pode sofrer, assumindo toda a realidade humana para que a toda ela pudesse redimir.
  Veio, e se chamou Jesus, e veio como a porta para o ser humano voltar, como o caminho para que o ser humano achasse novamente o Pai que desprezara, mas que apesar disso ainda os queria, sempre e sempre de volta. Não preciso escrever sobre como Ele foi recebido, nem preciso dizer o quanto foi questionado, perseguido, espancado. Com todo o poder para parar, com exércitos de anjos à sua disposição, Ele se deixou esmurrar até o fim, e como uma ovelha indo de encontro à faca estendeu o seu pescoço e se deixou cortar. Foi pagar o preço pelo homem, e foi até a cruz, sendo até lá insultado e com poucos em seu favor. Foi pagar o preço pelo homem e deixou que o próprio homem o fizesse pagar, com suas próprias e sujas mãos. E o homem não o fez de forma chorosa, como quem agradece por não ter de passar pela condenação. O próprio Deus viu a morte com os olhos de quem se vê rejeitado e odiado, e viu a raiva dos homens ser derramada sobre Ele, apesar de tudo o que Ele foi aos homens, desde o começo.

  E no fim disso tudo ao meu ver já não interessam discussões sobre predestinação ou livre-arbítrio. Quando nos concentrarmos no arbítrio de Deus e em que ele consistiu, e se de fato o entendermos, provavelmente o nosso arbítrio encontrará o caminho de casa.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Darwinismo e Igreja: os primeiros contatos

        É importante lembrar que o Darwinismo propriamente dito caiu já na década de 1980 - especialmente aí ganham força as críticas que vem a derrubar alguns pilares da teoria,  como o gradualismo evolutivo -, apesar de ainda ser ensinado descriteriosamente nas escolas. O evolucionismo, ainda assim, está longe de morrer no meio científico.
        Também pra quem pensa que o ateísmo é o único que comporta o evolucionismo, e que essa é a única coisa que faz sentido no mundo (se faz), e chama correntes alternativas de inconsistentes, vale saber que a coisa não é bem assim. Um pouco disso vai dar pra se pegar na leitura e talvez no link pra uma segunda postagem, mais antiga - e adiando que provavelmente com um ou outro argumento desatualizado -, que vou pôr lá em baixo, pra quem aguentar o tranco de ler tudo. xP
         O texto abaixo não é uma crítica ao darwinismo e nem uma apologia, sendo só uma análise dos primeiros contatos entre ele e a Igreja, no século XIX, acompanhado de uma análise da origem do conceito "fé vs. religião". Uma surpresa pra quem pensa que foi só quebra-pau! Diferente da maioria dos outros artigos, neste eu não vou defender meu ponto de vista. Coisa de acadêmico de história - já que esse foi pra entregar -, encargos do ofício. :P
         Mas no mais, é isso! A quem se interessa pelo assunto, bom proveito!

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Darwinismo e religião:
os apoiadores da teoria na Igreja do século XIX

      O darwinismo foi sem dúvida um movimento de ruptura como poucos e teve grande valor representativo nas mudanças ideológicas ocorridas no século XIX. Ao contrário do que se pensa, porém, o grande embate ideológico nem de perto se restringia ao âmbito religioso, influenciando de alguma forma praticamente toda a ciência e sociedade do período. Ainda assim, a Igreja não foi una em suas proposições, com representantes tanto opositores como apoiadores da inovadora teoria, frisadamente nos meios anglicano e católico, dos quais se tratará no decorrer do artigo.
Em novembro de 1859 o naturalista Charles Darwin publica a obra intitulada “A Origem das Espécies”, que se tornaria não apenas um clássico, mas um parâmetro e um verdadeiro divisor de águas no meio científico. A premissa básica era a da origem comum entre os seres vivos e da evolução gradativa de todas as formas de vida tendo por base de funcionamento o processo de seleção natural. Seu conteúdo questionou a compreensão tradicional de mundo do período em pontos sensíveis, e seria a aparente mais poderosa arma no famoso enfrentamento entre "fé e ciência", que tomaria força como nunca antes entre estudiosos, contradizendo todo o recorrente criacionismo literal, pregado pela Igreja - ou parte da - de então. Não por nada a obra é por muitos vista como o estopim do o nascimento do ateísmo moderno.
Ainda que não tenha havido aceitação plena por parte da Igreja, como bem se sabe, a mesma num primeiro momento não parece ter em unanimidade encontrado fortes empecilhos ou ameaças diante da nova linha teórica. A Igreja Católica sabidamente tomou como primeira posição uma recusa, todavia a Igreja Anglicana, conterrânea do naturalista, parece um exemplo oposto, ainda que logo antes tivesse com firmeza se posicionado contra a proposta de Lamarck.
A interpretação do criacionismo de Gênesis como literal seria a grande corrente opositora entre religiosos. Segundo o Pe. Gregory Tatum, École Biblque, o enfoque na interpretação literal do criacionismo de Gênesis, que tanto contrasta com as proposições darwinistas, não tivera tanta vazão na Igreja Anglicana em virtude de uma proposta da própria reforma, que consistia na ruptura com específicos traços da dogmática católica. A interpretação literal da criação, segundo ele, entrava em contrariedade com o ideário conhecido da própria Igreja cristã primitiva, onde teoricamente se discutiam mais ensinamentos que literalidades dos textos, realidade que mudaria com a influência do cristianismo ocidental e seu direcionamento dentro do ambiente romano. Já antes do século XIX, portanto, cristãos vitorianos consideravam a não literalidade da linha temporal bíblica, tese reforçada pelas próprias descobertas de fósseis na primeira metade do século, forte fonte de estudos nos entremeios científicos anglicanos, que por si só cooperariam para pôr a linha teórica em cheque. Estes avanços nos estudos de fósseis e rochas levariam os geólogos do período a proporem a existência prolongada da terra antes mesmo de Darwin, tendo esta então idade indiscutivelmente maior que a de 6.000 anos, sugerida por Ussher, que calculara seguindo a genealogia bíblica, desconsiderando as possíveis lacunas. A fundamentação antes de Darwin é citada pelo próprio:

“Até pouco tempo atrás, a maioria dos naturalistas era da opinião de que as espécies seriam produções imutáveis, criadas separadamente. Esse ponto de vista foi sustentado por muitos autores. Outros, no entanto, acreditavam que as espécies sofriam modificações, e que as formas de vida atuais eram os descendentes diretos de outras formas de vida preexistentes [...]”. (DARWIN, 1859, p.13).

           Durante grande parte do século XIX a ciência foi uma espécie de extensão da igreja, inclusive na Inglaterra, com clérigos anglicanos ocupando altos postos em universidades de porte como Oxford e Cambridge. Cientistas anglicanos não apenas não contradisseram a teoria como foram apoiadores, o que se sustenta no fato de que a produção científica à qual então tinham acesso já apontava em direção semelhante. O reverendo anglicano Charles Kingsley ilustra o fato no período afirmando que a evolução revelara “uma nobre concepção da Divindade”. Os cristãos vitorianos, como se viu, já nutriam uma concepção de formação da Terra razoavelmente sofisticada, construindo o campo para que o darwinismo não fosse repudiado de forma imediata. Mas é inegável que ainda assim o episódio causou uma ruptura com a visão tradicional de forma bastante saliente. Ainda que já houvesse tendências e pensadores racionalistas antes de então, notadamente na Inglaterra e na Alemanha, esse traço do protestantismo que possibilitou a abertura para esta nova concepção como um movimento distinto tem bases no século XVIII partindo de Semler, como cita Hurlbut:

   “A Reforma estabeleceu o direito de juízo privado acerca da religião e da Bíblia, independente da autoridade sacerdotal e da Igreja. Um resultado inevitável aconteceu: enquanto alguns pensadores aceitaram as idéias antigas da Bíblia como livro sobrenatural, outros começaram a considerar a razão como autoridade suprema e a defender uma interpretação racional, não sobrenatural, das Escrituras. Aqueles que seguiram a razão, em prejuízo do sobrenatural, foram chamados “racionalistas”. Embora o germe do racionalismo já existisse na Inglaterra e na Alemanha desde o início do século XVIII, suas atividades como movimento distinto começaram com Johann Semler (1725-1791), o qual defendia que coisa alguma recebida pela tradição deveria ser aceita sem ser posta à prova [...]” ( HURLBUT, 2007, p. 207-208)

No âmbito de influência católica também houve, mesmo que em menor número, homens como o cardeal John Henry Newman, que apoiavam as novas e polêmicas ideias. Em famosa citação, declara Newman: “O darwinismo, verdadeiro ou não, não é necessariamente ateísta. Pelo contrário, pode estar apenas sugerindo uma ideia mais ampla da providência e sabedoria divinas”.
Entre os principais argumentos de sustentação da conciliação entre o criacionismo e a teoria evolucionista de Darwin estava o da atemporalidade de Deus, proposta por Agostinho, que permitia que a criação ocorresse em milhões de anos, que para Deus sem problemas poderiam ser como dias. Esta foi a base para o que passaria a se chamar “evolucionismo teísta”, uma linha de grande vazão até os dias de hoje, ainda que com alterações em linhas gerais desde o século XIX. Neste caso apontava-se ao fato de que a visão que originara os escritos de Gênesis revelava as fases pelas quais passara a criação, e não dias literais. As fases da criação se equiparariam de forma aceitável com as linhas evolutivas que então se propunha, abrindo margem à interpretação de que a idade longa da Terra, bem como a evolução, se faziam então viáveis diante do relato bíblico. Para os mestres da Igreja, Deus não se relacionaria com a criação como mero espectador, e nem agiria arbitrariamente, mas conduzia a vida e seus processos. Se houvesse, portanto, de fato ocorrido a evolução, Deus é quem teria garantido a perfeição dos processos que conduziram às formas de vida sofisticadas que hoje conhecemos, garantindo que viessem a se tornar exatamente o que são.
O maior contraponto ideológico encontrado pelo darwinismo no momento em que este surge, e sendo este a provável maior base de argumentação dos que inicialmente se contrapuseram à teoria, partia do teólogo britânico William Paley, que basicamente comparava a complexidade da criação sustentando a vida com os mecanismos internos de um relógio, equilibrados e funcionando como um todo com exatidão, uma vez que a vida seria tão sofisticada e carecida de equilíbrio e cálculo, que cada criatura deveria ter sido individualmente projetada. No contexto de revolução Industrial, uma concepção que lograva atenção e identificação. Uma forma de ver a Deus como um grande mecânico, um projetista fundamental.
Mas a verdadeira guerra entre o darwinismo e a religião, o acirrado embate da famosa temática “fé vs. razão”, claramente não se iniciara com a força que conhecemos no início do contato com o naturalismo, e carece entender então em que momento esta se deu. Alega-se que o embate em larga escala teve sua primeira fagulha no Cinturão Bíblico americano, num debate essencialmente político e moralista, no alvorecer da década de 1920. A teoria lograva aceitação nos EUA, mas era crescente a tendência extremista no cristianismo. No Estado de Tennessee não demorou a vigorar lei proibido o ensino do darwinismo nas escolas, situação onde ocorrera o famoso caso de John Scopes, professor preso por desacatá-la. Em 1925, em tribunal na cidade de Dayton, foram organizadas reuniões visando discutir as conjunturas legais nas quais houve forte embate entre liberais e conservadores; os primeiros defendendo a liberdade indistinta de ideias, e os oponentes defendendo a censura a ideias “não bíblicas”. Ficou conhecido este momento como “O Julgamento do Macaco”, pela ênfase dada às questões naturalistas. Liderando o processo contra a difusão das ideias darwinistas estava William Jennings Bryan, um fundamentalista cristão e socialista, que via no darwinismo um dos motivos da queda da moralidade norte-americana, atacando toda a linha ligada à teoria mesmo no que transpassasse o darwinismo científico, a exemplo enfático do “darwinismo social”, que representaria a selvageria do capitalismo no período. Do lado oposto estava Clarence Darrow, alegando defesa ao darwinismo e à liberdade de ensino e expressão de ideias, sem distinção, mas atribuindo ao uso efetivo da seleção pelo mais forte e apto - favorecendo os encaminhamentos do capitalismo de então, atacados por Bryan - uma base social melhor que a cristã, que não faria essa distinção. Aí iniciaria, portanto, a fase mais direta da "guerra" cuja presença tanto vemos ainda em nossos dias.
O contexto de Darwin fora menos inflamado que o do século XX. Vale lembrar que em boa parte da vida foi ele também cristão. Ainda que se unam os fatores da perda de sua crença com a proposição de sua teoria, é sabido o momento da morte de Annie, sua filha, como o ponto a partir do qual passara Darwin a negar de fato sua fé. Todavia mostrou ele ao longo da vida evidentes indícios de uma crença persistente em Deus, e um exemplo está em uma carta de sua autoria escrita um ano antes de seu falecimento, em resposta a uma obra que em tese criticaria o evolucionismo por ele proposto, em 1881, na qual redige: "Devo dizer-vos que em vosso livro 'Pretensões da Ciência' expressastes a minha profunda convicção, e mesmo mais eloquentemente do que eu saberia fazê-lo, isto é, que o universo não é e nem pode ser obra do acaso"; bem como outra carta, esta escrita em 1873, na qual consta o trecho: "Posso afirmar-vos que a impossibilidade de considerar este magnífico universo, que contem o nosso 'eu' consciente, como obra do acaso, é para mim o principal argumento em favor da existência de Deus". A incompatibilidade entre o darwinismo e religião, portanto, não representou num primeiro momento o embate que toma a memória popular, aparentemente nem por parte de Darwin.
Ainda que vejamos hoje o atrito que há entre a teoria e suas linhas decorrentes com os posicionamentos criacionistas, nem sempre foi assim. Mesmo entre religiosos do período, como vimos, surgiram tanto opositores como apoiadores da advinda proposta.
O darwinismo foi um movimento de extrema relevância na ciência e no pensamento do século XIX, e indubitavelmente forma uma das bases para o que veio a se fazer hoje a ciência e mesmo a sociedade. É um assunto rico e distante de se esgotar, carecendo ainda de análises, estudos e da atenção que inegavelmente sua relevância lhe remete.


Ticiano Castoldi.

Havendo interesse, postagem de tema semelhante: Seria Deus um evolucionista?

Referências

*DARWIN, Charles – A Origem das Espécies. Coleção A Obra-Prima de Cada Autor, 2ª edição, São Paulo – SP: Martin Claret, 2004.
*HURLBUT, Jesse Lyman – História da Igreja Cristã. São Paulo-SP: Vida Acadêmica, 2007.
*DOWLEY, Tim – Os Cristãos: Uma História Ilustrada. São Paulo – SP: Martins Fontes, 2009.
*Doc.: BBC London - Did Darwin Kill God, 2009.
*educacao.uol.com.br
*alansemeador.xpg.com.br

É isso aí, gurizada! Abraço! :P

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A rosa, a tela e o soldado

oscaminheiros.blogspot.com
  Adianto que essa postagem aqui não é das melhores e tem um cunho "pessimista", alguns diriam. É um dos ângulos da incumbência de viver nesse mundo. O ponto é que nos últimos dias o número de amigos que tem se chegado a mim com problemas pra resolver e, como dizia o seu Werner, com verdadeiras “explosões internas”, extrapolou o normal. Eu mesmo não tenho o hábito externar angústias quando elas surgem, aquela sensação de ter de encontrar um rumo e tal. E querendo ou não, mesmo aquelas pessoinhas meigas que andam sempre com um sorriso estampado no rosto tem um universo extremamente complexo dentro de si. No fundo a gente conhece de verdade as pessoas quando elas nos dão acesso a esse mundo particular. Sem descobertas hoje, só percepções que tem se posto diante de mim de forma mais clara do que esperava.
  O que isso tudo me lembra é aquela saudade que as pessoas tem da infância. Por que? Porque a meu ver a infância termina com um susto. A maturidade em certo ponto de vista é alcançada desse jeito, quando no meio dessa estradinha damos de cara num muro, que nem de perto pensávamos que estaria ali. Esse susto marca o início da percepção de que nossa visão era uma bonita utopia e de que o mundo tem, na realidade, muito de hostil, e de que pra viver nele careceremos de força, o tal do jogo de cintura e, em alguns casos, bastante das duas coisas. Não sei... Talvez muitas das nossas concepções e esperanças se fundamentem nessa segurança primordial, e provavelmente essa referência nos seja em vários aspectos um suporte pras lutas que vem quando chega a nossa vez de dar uma de gente grande. Pra algumas pessoas essa infância acaba cedo demais, e nessa linha de raciocínio faz todo o sentido a quebra de estruturas que chamamos de “traumas”. Não tenho bala na agulha pra argumentar no âmbito da psicologia, então vou evitar pegar esse rumo de forma direta pra me ater aqui nessas percepções meio esparsas. Em suma, com tudo o que tem de belo, não, o mundo não é legal. E se pra ti tá tudo lindo, criatura, te falta dar uma volta por aí pra entender a situação.
  São engraçadas essas frases corriqueiras como: “pessoas inteligentes são menos felizes” ou “pensar demais faz mal”. Não estou aqui pra aconselhar em linhas claras um masoquismo psicológico – não me parece necessário -, mas acredito que isso se ilustre bem no fato de que, quando olhamos essa rosa com mais atenção, percebemos que mais do que uma flor, ela é uma grande vara verde cheia de espinhos que vamos ter que colher pelo caule e apertar com força.
  Se há algum indício da sabedoria que alegamos ter recebido Salomão nos tempos bíblicos, é o livro de Elcesiastes. Andei relendo-o, e acabou por complementar o que me veio com esses últimos tempos. O argumento é basicamente o de que tudo o que o homem faz é uma grande inutilidade, e tudo o que construímos um dia vai ser esquecido, assim como foi esquecido o que fizeram os antigos. E uma geração vai e outra vem, e nada nesses nossos grandes objetivos de vida na verdade tem importância. A vida é um sopro, e quando tu percebes, já soprou. Aí, meu velho, grande merda tudo o que foi feito ou não. Vai passar, vai ser esquecido, vai acabar junto com tudo o que por algum motivo - invariavelmente não tão importante assim - foi construído. E tudo o que fazemos parece se resumir a aflição, a correr atrás de algo na vida que nem sabemos direito em que realmente consiste. Tudo, tudo o que fazemos é completa inutilidade movida por uma real aflição de espírito encrustada no âmago do que somos.
  É uma visão cruel acerca de um mundo cruel. E não me entenda mal, eu sei que “o mundo é belo e cheio de coisas belas”, e temos muito pelo que agradecer. Mas nesse mundo doente, no que toca a segurança emocional humana, isso não difere muito dos alegres e seguros fundamentos de uma infância saudável, infelizmente diretamente dependente de inocência, no sentido de ignorância em relação à realidade do mundo, mesmo. Aliás, quando realmente não se está bem, não há vento na cara que resolva, apesar de sempre ter sua graça. xP
  Mas Salomão encerra o livro, e esse é o ponto mais importante, após a percepção de que é tudo inutilidade, atentando para algo que parece dessa vez nos dar coordenadas, algo que parece fazer sentido que façamos: “Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem”. Lewis talvez exemplifique bem o que Salomão diz após tudo com a frase “o que não é eterno, é eternamente inútil”.
  No fim das contas vento, chuva, folhas, montes, cidades, amor, apreço, amizades, ajuda mútua e tudo o que há de melhor no mundo e no homem, tem valor. Tudo isso nos mantém, e está, sim, entre o que há de maior. Não pela utilidade em si, mas porque apontam a uma realidade maior e eterna, e falam sobre um pouco do que origina essa nossa incompletude. Nos aponta algo que perdemos, e leia-se nisso a plenitude de segurança, beleza, simplicidade... E algo que nem a infância pode oferecer, que é a dita sensação de se estar onde RAIOS se deve estar, condição que se encaixa, enfim, com o que somos. No ponto de vista bíblico, é justamente essa a percepção à qual teremos acesso. Uma direção que põe um ponto nessas mediocridades sem pôr um ponto no novo.
  Tudo o que queremos, acredito, é que as coisas façam sentido. A ruptura do homem com Deus é basicamente a perda um mecanismo da própria essência. A questão é religar os pontos. Pra um cristão os problemas continuam, as dúvidas também, e não adianta fingir que não. Mas a cada cambaleio, Deus faz mesmo aquela diferença que só na prática se entende.
  A vida é difícil, estamos num mundo corrupto e doente, mas há vários anos uma imagem tem me feito montar uma percepção, a meu modo, disso tudo. A vida diante de Deus é como se fosse uma tela que vamos expor daqui a algum tempo. E temos que nos virar com as tintas que nos vem. Não queríamos a verde, mas ela veio. Queríamos aquela cor vinho numa quantidade maior, mas o que veio é o que dá pra usar. Aquele azul ali no canto, quase passando desapercebido, pode compor quase todo o fundo. A gente não controla o que vem por aí, mas temos na mão a oportunidade de fazermos dessa pintura algo bacana com o material que nos vem à mão. Talvez a fé seja essa consciência de que Deus nos põe nas mãos as cores certas. É claro que podemos sentir falta de tons escuros, atentar à nossa própria noção do que parece melhor e jogar um punhado de lama na tela, mas com o foco certo, ouvindo a voz certa, esses estragos não precisam acontecer, e na pior das hipóteses ao menos não de forma irreversível.

  Não há nessa vida por enquanto uma solução para todas as dores do mundo, e nem é aqui que seremos plenos. Todavia, temos aqui uma direção, como soldados perdidos em uma mata escura que depois de muito tempo escutam uma voz no rádio que vai transmitir as tão esperadas coordenadas pra que se chegue no objetivo. É assim, sempre um passo no escuro, com fé de que essas coordenadas estão nos salvando da morte. E por fim, de que por mais que essa estranha planta com um caule cheio de espinhos não seja fácil de ser arrancada, aquela flor não é um detalhe, mas o objetivo pelo qual aceitamos tirá-a do chão. :]

sábado, 25 de agosto de 2012

A Jornada do Herói

shaddow-knight.tumblr.com
  Ontem foi o aguardado dia de assistir no cinema "Batman - The Dark Knight Rises". Bruce Wayne - Batman - é definitivamente meu personagem favorito entre a classe de heróis/super-heróis. Sim, bem melhor  que o Wolverine! hahah
  Não pelo estilo, por técnicas, pela sagacidade e capacidade, mas pela aura ideológica que cerca o homem-morcego. Um indivíduo que enfrenta seus traumas e seus medos e é capaz de chegar ao ponto de mergulhar no que mais lhe causa dor por amar os cidadãos de sua cidade; Um homem abastado e de vida segura que abre mão de seu conforto e empreende esforços para proteger os que o cercam, pondo a própria vida em xeque; Um cara que não se preocupa tanto com os holofotes sobre si, que admite não ser maior que qualquer cidadão altruísta em momentos difíceis, e que não deixa de o fazer quando a própria população aparenta por atitudes merecer mais a punição que uma mão amiga, merece no mínimo o meu respeito.
  Mas não vim falar de HQ's e afins... Por mais que eu insistentemente ouça aquela asneira do "pensa primeiro em ti", que tanto se incentiva hoje, lembro que não é essa a jogada. Sou cristão, e isso define bem o lado no qual devo me pôr. Jesus ensinou como se movem as peças no tabuleiro, e burlar as regras pode parecer vantajoso, mas invalida qualquer tipo de êxito no fim do jogo. Obviamente isso não implica em ignorarmos completamente a nós mesmos, mas ordena as prioridades.
   Foi entendendo o que Cristo fez que acabei aprendendo a amar pessoas à minha volta. E assim como, segundo Mulher Gato, Gotham não fazia por merecer, nos também não merecemos porqueira nenhuma da parte de Deus. Não é questão de mérito. Ainda que às vezes nem arranjem coragem de expor, por exemplo, no fundo sei de erros, digamos, graves e bastante fortes que pessoas por quem realmente tenho apreço cometeram ao longo dessa vida maluca, e é óbvio que esses erros não fazem diferença pra Deus - e é só o que faltava fazerem pra mim. Eu, nessa curta vida, erro, erro, erro todo o santo dia, e nem por isso deixo também de ter acesso ao perdão, a uma nova chance toda a vez. Cristo ensinou em vias bem práticas em que isso consiste. Ninguém que tenha acesso ao mesmo Cristo é mais ou menos pecador que outro, diante de um arrependimento real. Estaca zero, todos no mesmo time, e dane-se! Bora tocar a vida. É sempre assim. É isso o que nos conforta, o que nos liberta, nos reabre portas, e também o que nos põe em nosso lugar.
  O que realmente muda a concepção é a visão que permite enxergarmos as essências, as pessoas por quem são, e não pelo que nos representam. Não se trata de alguém me fazer bem ou não, em suma, mas de ser quem é. Nessa postagem bem vaga e nada intelectualmente sofisticada, no mínimo dá pra chegar à conclusão de que É ESSE O PONTO! Porque que pela lógica cristã, sem isso, se não fosse essa a percepção de Deus, não seriamos nada e nem teríamos chances. Sem exceção, estaríamos ferrados e com um destino nada promissor como única alternativa.
  O que forja um herói não são as habilidades, mas as atitudes, a luta e a motivação que o leva a lutar. No âmbito do cristianismo, sendo ou não difícil, estamos no mesmo balaio e com o mesmo objetivo. Batman em alguns aspectos daria uma boa parábola. :P
  Eu poderia fazer um combo com as argumentações de algumas outras postagens, mas não acho que seja o caso. O que me fica do link desses assuntos com o INCRÍVEL terceiro filme da trilogia de Nolan, é isso: 'Be a hero!' B]
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Sem tempo há séculos, mas de vagar quem sabe o blog volte à ativa... Tenho alguns pequenos textos na manga, em breve devo estar postando algo um pouco mais elaborado de novo.
Abraço procês!